Do escambo ao caos

Não somos mais capazes de imaginar como seria a vida sem ele. Não comemos, moramos ou nos vestimos se não o temos. De alimentos a computadores, de imóveis a corridas de taxi, é ele quem viabiliza todas as nossas transações. Precisamos dele para vender ou adquirir tudo o que produzimos ou necessitamos. Sem tê-lo como referência de valor, não saberíamos dizer se um saco de feijão vale mais ou menos do que um par de sapatos. Mas ele, o dinheiro, como conhecemos hoje, é apenas a expressão mais visível de uma das nossas criações mais geniais e perniciosas: o sistema monetário.

Durante as dezenas de milhares de anos que antecederam os nossos primeiros assentamentos, quando perambulávamos por aí apenas coletando e caçando alimentos, assim como qualquer outro primata, se algo nos interessava – como uma presa, um fruto ou uma pedra que pudesse servir como ferramenta – simplesmente pegávamos o que queríamos e saíamos andando. Caso alguém mais estivesse de olho na mesma coisa, talvez uma luta fosse necessária para resolver a disputa.

No entanto, em algum momento entendemos que poderíamos facilitar as coisas e, quem sabe, lutar menos. Poderíamos trocar as nossas posses; ora, se eu tenho duas pontas de lança para caçar, mas não tenho uma pele de cervo para me aquecer, porque não trocar com alguém esteja na situação inversa? Ou, se meu bando domina o entorno de uma fonte de água, porque não deixar o bando vizinho se abastecer em troca alimento fresco e utensílios de cerâmica? Simples, mas incrivelmente nenhum de nossos parentes hominídeos teve a mesma ideia. As primeiras trocas provavelmente tenham iniciado no Paleolítico, mas os vestígios mais antigos dos nossos primeiros escambos de bens e serviços têm uma relação direta com os primeiros assentamentos humanos, no início do período Neolítico, cerca de 12.000 anos atrás. Se considerarmos a escala do tempo da jornada dos sapiens no planeta até aqui, de pelo menos 200.000 anos, podemos dizer que faz bem pouco tempo que tivemos essa grande sacada.

O escambo foi uma revolução para que pudéssemos viabilizar nossas primeiras civilizações, porém, logo percebemos só isso era pouco. Nem sempre encontraríamos alguém com um par de sandálias disposto a trocá-las por um par de peixes. Por sinal, como faríamos para determinar o valor de cada bem ou serviço? Precisávamos atrelar valor à objetos que fossem universais e reconhecíveis por todos. Passamos por conchas, sal, grãos e até cacau como moedas-mercadoria. Ainda assim, não era suficiente, precisávamos de algo que não se deteriorasse, que fosse aceito por povos distantes e que pudesse manter seu valor intrínseco inalterado em qualquer lugar do mundo antigo ao longo de gerações. Percebemos então que metais seriam perfeitos para esse propósito. Por volta de 4.000 anos atrás, lingotes ou peças de ouro, prata e cobre passaram a funcionar amplamente como meio de troca. Entretanto, para garantir mais precisão em transações cada vez mais complexas entre diferentes regiões e reinos, precisávamos de padrões mais rígidos. As primeiras moedas cunhadas conhecidas surgiram no Reino da Lídia, hoje parte da Turquia, somente por volta de 600 a.C.

A essa altura, já havíamos tido a grande ideia de criar instituições não estatais onde pudéssemos depositar valores com segurança, emitir certificados de depósito privado que davam ao seu portador o direito de sacar uma determinada quantia e, quem sabe, até fazer um empréstimo para devolvê-lo um pouco mais adiante em troca de uma quantia maior – havíamos criado os bancos e os juros! No entanto, levaríamos mais mil e seiscentos anos até que inventássemos algo ainda mais surpreendente; o papel-moeda. Até então, moedas valiam o metal em que eram cunhadas, tinham valor intrínseco. Mas no século XI, a China começou a imprimir papéis com valor de face chancelados pelo Estado e lastreados em reservas metálicas. Moedas fiduciárias, que dependem da confiança que se tem em seu emissor, passariam a ser o padrão básico pelos séculos seguintes.

De lá pra cá a criatividade foi vertiginosa. Hipotecas, cartões de crédito, títulos, tarifas, swaps, hedges, fundos, ações e derivativos, uma infinidade de instrumentos financeiros, compreensíveis ou não, transformaram a economia global e o mundo financeiro em um misto de complexidade e fantasia. Do escambo ao caos levamos alguns milhares de anos, mas aceleramos com força na reta em que nos encontramos agora; ativos digitais, descentralização bancária, blockchains, criptomoedas, bancos centrais se esmerando para manter o sistema nos trilhos. Torcemos para não encontrarmos alguma curva fechada demais logo a frente, mas a verdade é que não temos a menor ideia para onde estamos indo.

Gostemos ou não de uma sociedade baseada no poder que o capital confere a quem o possui, o fato é que o sistema monetário é uma das criações mais esquisitas e geniais da nossa espécie. O sistema monetário, no entanto, como o conhecemos hoje, é apenas uma forma passageira, algo em mutação contínua, que sofre revezes e se aperfeiçoa, dentro de poucos anos será certamente outro. Em um mundo não lastreado e digital, valores se multiplicam e se estilhaçam na velocidade da luz. Bilhões e trilhões são agora números pronunciados com uma facilidade espantosa, ainda que nem saibamos ao certo para que tantos zeros. Como é do nosso feitio, vamos empilhando camadas de sofisticação sobre tudo o que havia começado de forma simples e natural até o ponto onde nem lembramos mais onde e porque tudo começou. Na aurora das Inteligências Artificiais, o que virá a seguir?

Dois passos para frente, um para trás

Nenhuma novidade. Há centenas de milhares de anos andamos para frente no jogo da evolução, mas, eventualmente, contra toda a lógica, fazemos o caminho inverso e regredimos algumas casas. Às vezes, até muitas casas. Assim caminha a humanidade desde o início, dois passos para frente, um para trás. A evolução não é uma progressão linear e de tempos em tempos pode sofrer revezes inesperados. Conhecimentos adquiridos, direitos conquistados ou períodos de paz consolidados estão sujeitos a sofrerem abalos repentinos e serem soterrados por escombros por um longo período, até que um dia, quem sabe com sorte ou determinação, possam ser reencontrados por aqueles que jamais esqueceram o que foi aprendido.

Difícil compreender como o mundo luminoso da Grécia Antiga, berço da democracia e do pensamento filosófico e científico ocidental, descambou para os retrocessos da Idade Média mil e quinhentos anos depois. Ou então, como a Pérsia, hoje Irã, que no século XI era o centro mais avançado do conhecimento médico humano, se transformou em uma ditadura islâmica mil anos após Ibn Sina. Também não é fácil entender como conhecimentos milenares chineses, do confucionismo ao budismo, foram massacrados pela Revolução Cultural Comunista meros 60 anos atrás. Ao invés de somarmos conhecimentos e avanços, miscigenarmos ideias e andarmos para frente, destruímos pontes apenas para termos de reconstruí-las em algum outro momento.

Somos estranhos, é verdade, a razão nem sempre é o nosso forte, mas o que está acontecendo conosco, a espécie que reina absoluta no planeta há dezenas de milhares de anos? Estamos refletindo pouco e brigando demais. É provável que no primeiro quarto do século XXI estejamos dando alguns desses largos passos para trás e abrindo mão de conquistas obtidas a duras penas por nossas gerações passadas – liberdades, igualdades, governos democráticos, livre mercado, secularismo, bem-estar social, consciência ambiental.

No momento em que as inteligências artificiais generativas prosperam em velocidade desconhecida e o clima do planeta em desequilíbrio nos ameaça, estamos derrubando a globalização e erguendo muros entre nós, os sapiens. Como entender o que acontece com os Estados Unidos da América? A mais longeva democracia do planeta, viva desde 1776, tornou-se refém do extremismo nacionalista e deixou-se levar por promessas imediatistas de resgate a um passado glorioso. Não existe um passado glorioso a ser resgatado. A história é imperfeita e repleta de altos e baixos. Os Estados Unidos, a maior potência econômica, militar, política e cultural dos últimos 100 anos, viviam até aqui um momento fantástico, não havia um passado glorioso a ser perseguido, isso é populismo raso. O que havia era um presente a ser melhorado não desprezando-se o caminho percorrido até este instante.

Bater nos amigos, especialmente nos melhores, ao mesmo tempo em que se ameaça os inimigos, não está no manual dos sábios. Acenar apenas para uma pequena parcela da larga base que o sustenta também não está nesse manual. Solapar direitos constitucionais e corroer princípios democráticos, já isso faz parte de um outro manual, o dos autocratas. Promessas de anexações territoriais pela força, desmonte de agências reguladoras e ataques a instituições científicas, igualmente fazem parte desse mesmo manual.

Talvez tenhamos avançado rápido demais em causas progressistas e acabamos nos perdendo em nossos próprios ganhos. Liberdades foram confundidas com um vale-tudo libertário. O excesso de políticas de bem-estar social tornou-se um convite à vida sem grandes esforços e um fardo aos cofres públicos. Movimentos migratórios descontrolados exaltaram os ânimos. Causas ambientais foram politizadas e perderam-se do equilíbrio necessário entre progresso e preservação. Bom senso, honestidade, empatia, ética, solidariedade, racionalidade, coletividade e trabalho duro, tornaram-se valores obsoletos?

Nós e o mundo que criamos somos metamorfoses ambulantes. Ao longo dos nossos milhares de anos de história demonstramos uma capacidade espetacular de adaptação, inovação e resiliência. Somos dotados de uma criatividade sem limites e uma força interior que transcende apenas os nossos instintos de sobrevivência. No entanto, se a despeito de todas essas qualidades, não formos capazes de nos unir e somar, é possível que os próximos dois passos para frente estejam reservados somente para as nossas próximas gerações.

Pátria ou razão?

Não faz muito tempo não havia linha alguma no mapa. Na verdade, não havia mapa algum. Vivíamos como qualquer outro animal, nos locomovendo livremente de um lado a outro, movidos apenas por necessidades básicas de alimentação, reprodução ou segurança. Nosso único senso de pertencimento era com nossos pequenos grupos familiares nômades. A não ser por medo ou falta de interesse, não havia impedimentos para irmos a qualquer lugar que desejássemos ir. Mas coisa de 12 mil anos atrás, na região do Crescente Fértil (hoje, partes do Oriente Médio), alguns de nós, sapiens, começaram a perceber os benefícios de fincar raízes em um pedaço de chão e aos poucos aprendemos a domesticar plantas e animais. Até que deixássemos definitivamente para trás os nossos mais de 200.000 anos como caçadores-coletores nômades e fizéssemos a transição completa para o sedentarismo e desenvolvêssemos civilizações em todas as regiões do mundo, no entanto, levaria ainda mais alguns milhares de anos.

A partir do momento que nos fixamos e tornamos nossas ocupações mais complexas, não é difícil imaginar que logo surgiram os primeiros traços – de início em tábuas de pedra ou argila – com representações rudimentares de nossos assentamentos e entornos. Passamos a tomar posse de regiões, nomeando e demarcando territórios. À medida que as civilizações se tornavam mais e mais sofisticadas, assim também se tornavam os mapas. Surgiu a cartografia. Porções de terra e água começaram a ser identificadas: continentes, oceanos, ilhas, rios, desertos, mares e montanhas. O mundo passou a ser medido e quantificado.

Os caprichos humanos, no entanto, jamais permitiram que houvesse entre nós algum tipo de divisão justa dos espaços. Somos seres migratórios e territoriais por natureza. Guerras e conquistas são parte da história humana desde o início e assim continuarão sendo. Mesmo que por diversas gerações determinada região pertença a um grupo étnico ou religioso, territórios mudam de mãos o tempo todo. Quando se pensa em uma escala temporal ampla, não há qualquer canto no globo que não tenha trocado de domínio diversas vezes.

No ano 100 d.C., por exemplo, nenhum cidadão romano seria capaz de vislumbrar um fim para sua gloriosa pátria. O Império Romano vivia seu auge, uma fortaleza invencível e moderna que dominava vastas extensões de terra, incluindo grande parte da Europa, o sudoeste asiático e o norte da África. A totalidade do Mar Mediterrâneo estava sob seu domínio, não havia qualquer motivo razoável para crer em queda. Mas um dia – em um processo que levaria séculos – o império ruiria. Alguém nascido hoje português, croata, tunisiano ou libanês, 2 mil anos atrás poderia ter nascido romano. Quem pode afirmar qual nacionalidade terá alguém nascido nesses mesmos pontos geográficos daqui a 200 anos? Isso é a história humana, tudo o que parece ser o ponto final das divisões políticas dos estados e nações é apenas uma vírgula, uma situação transitória, algo que será inevitavelmente alterado em algum momento adiante.

Os Estados Unidos, a maior potência militar e econômica desde o final da 2ª Guerra, seguirão unidos para sempre? A China, deterá seu próprio avanço sobre nações vizinhas algum dia? Estarão famílias coreanas separadas para sempre? O que será de tantas nações africanas, com muitas de suas fronteiras atuais forjadas em negociações inconsequentes tratadas por seus ex-ocupantes europeus? E quanto as autocracias do Oriente Médio, até quando serão propriedades de famílias? A lista de indagações é enorme, mas a única certeza é que muitas linhas no mapa político serão apagadas enquanto outras tantas serão criadas. Povos apartados pela força talvez voltem a se unir um dia, enquanto outros, hoje unidos a contragosto, se apartem.

A percepção de que tudo muda, e portanto, o fato de que o país ao qual pertencemos hoje pode ser outra coisa amanhã, é valiosa para mitigarmos nacionalismos exacerbados. Quase todos nós temos uma pátria, um país ao qual pertencemos. Aprendemos a nos tornar patriotas, saudar nossas bandeiras e acreditar que por ela, a pátria, devemos respeito e até nossas vidas se for o caso. Se vivemos sob as mesmas leis e costumes, compartilhamos a mesma língua, a mesma moeda e os mesmos dirigentes, é natural nos sentirmos parte de um grande grupo de outros seres humanos abrigados dentro das mesmas fronteiras. Mas as fronteiras não foram sempre essas e não serão assim pelo resto da história. Se as coisas não mudarem para nós, nossos filhos ou netos, talvez para nossos bisnetos algo seja diferente.

Se algumas nações já acumulam séculos de história e patriotismo, outras saíram do forno ontem. Certos Estados, que para qualquer um de nós que não seja um centenário, parecem existir desde sempre, na realidade são jovens, muito jovens. Algumas nações não tem sequer 80 anos, nascidas no pós-guerra, outras são ainda mais novas. Apesar das origens antiquíssimas, Líbano e Síria não são nações antiquíssimas. Judeus e palestinos, ainda que reivindiquem ocupações milenares, não estão lá desde sempre. Arábia Saudita e Iraque, por mais que a história de seus povos beduínos nômades remonte milhares de anos, não surgiram com o deserto. Suas fronteiras são quase todas linhas novas em mapas modernos. Se voltássemos ao ano 1.000 d.C., todos esses países fariam parte do Califado Abássida.

Apesar dos avanços da Rússia sobre a Ucrânia ou das ameaças da China sobre Taiwan, guerras de conquistas hoje são muito menos aceitáveis em um mundo arbitrado em boa parte por organizações multilaterais. Mas há ebulições internas, conflitos religiosos e interesses sobre recursos naturais preciosos. Milhares de quilômetros de fronteiras permanecem em disputa entre países. Há ainda um continente inteiro sem dono a ser fatiado entre as nações que, por hora, apenas fincaram bandeiras e montaram bases para estudos científicos. Quem duvida, especialmente em um planeta em rápido aquecimento, que a Antártica, uma porção de terra quase do tamanho da América do Sul, com vastas áreas cobertas por gelo prestes a se tornarem habitáveis, poderá um dia se tornar uma miríade de novos países?

Até quando o próprio conceito de fronteiras nacionais seguirá válido? Um dia extravasaremos o planeta Terra e tentaremos colonizar outros cantos universo afora. Começaremos pela Lua ou talvez por Marte, depois iremos atrás de mais. É possível que em algum momento encontremos resistência de outras formas de vida. Quando tivermos todos uma luta em comum, deixaremos então de ser brasileiros, japoneses ou alemães e seremos então apenas terráqueos ? Seria bom que a pátria jamais precedesse a razão, mas continuamos a ser os mesmos estranhos de sempre, os Estranhos sapiens.

A Mãe de todas as fontes

Uma estrela amarela anã. Para padrões do universo, não muito grande: 1.392.000 km de diâmetro (há por aí, galáxia afora, algumas gigantes com diâmetros que passam de 2 bilhões de quilômetros). Uma esfera de puro gás, basicamente 3/4 de hidrogênio e 1/4 hélio. Em seu núcleo, a 15 milhões de graus Celsius, reações de fusão nuclear convertem hidrogênio em hélio ininterruptamente há 4,6 bilhões de anos, gerando luz e calor na medida certa para que toda a vida no planeta seja possível.

Nosso Sol é só mais uma dentre um número incalculável de estrelas, mas para nós ele é tudo. E demos sorte de estarmos na distância exata; a 150.000.000 de quilômetros, pois caso contrário não haveria muita chance de existirmos no planeta. Para se ter uma ideia, se trocássemos de lugar com Netuno, 30 vezes mais distante do Sol do que nós, a temperatura média da superfície do planeta não passaria muito dos -214oC. Já se estivéssemos no lugar de Mercúrio, a meros 58 milhões de quilômetros do Sol, talvez experimentássemos temperaturas diurnas superiores a 400oC. Isso sem considerar que a atmosfera, como a conhecemos, seria alguma coisa completamente diferente.

A energia emanada pelo Sol é tamanha que recebemos por segundo, no topo da atmosfera, 1.361 W por metro quadrado – um número conhecido como constante solar. Mesmo considerando que cerca de 30% de toda essa energia que chega ao planeta é refletida de volta ao espaço, ainda assim absorvemos da nossa pequena estrela 121.450.000 GW de energia por segundo. Ainda que as medidas de energia não sejam tão fáceis de se compreender como medidas de distância e temperatura, se pensarmos que atualmente, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), consumimos em torno de 19.700 GW por segundo, então, em outras palavras, recebemos do Sol mais de 6.000 vezes a quantidade de energia do que todos nós, os sapiens, usamos atualmente. Isso significa que nossa estrela nos fornece gratuitamente uma quantidade imensamente maior de energia do que precisamos para realizarmos todas as nossas atividades humanas.

Porque então seguimos extraindo das profundezas bilhões de toneladas de carbono em forma de petróleo, gás natural e carvão para queimá-las? Quando o fazemos, o carbono que está retido há milhões de anos nesses combustíveis fósseis reage com o oxigênio presente na atmosfera e é liberado em forma de dióxido de carbono, o gás carbônico (CO2). O que torna o problema dramático é a velocidade estonteante com que estamos fazendo isso. Em menos 300 anos, desde o início da Revolução Industrial, quando descobrimos a eficiência energética da queima do carvão, já lançamos na atmosfera mais de 1 trilhão de toneladas de CO2, o que significa que do total de dióxido de carbono presente hoje no ar, mais de 1/3 fomos nós que adicionamos em uma fração de tempo quase irrelevante.

Para piorar o estrago, nós, os sapiens, que nos julgamos o supra-sumo da vida, estamos raspando da superfície terrestre, ou eliminando dos oceanos, os únicos seres vivos capazes de fazer o caminho inverso; transformar dióxido de carbono em carbono orgânico e liberar de volta na atmosfera oxigênio. Estima-se que mais de um terço de todas as florestas, responsáveis por quase 50% de toda a fixação de carbono do planeta, já tenham sido destruídas. Talvez metade da massa de fitoplâncton, responsável por outros quase 50%, também tenha sido perdida. Em outras palavras, conseguimos a façanha de reduzir drasticamente nossa capacidade de retirar gás carbônico da atmosfera e devolver a ela oxigênio, ao mesmo tempo em que seguimos adicionando descontroladamente ainda mais CO2. Como ainda podemos duvidar que isso nos levará inevitavelmente para o colapso do tênue equilíbrio do planeta?

Temos os meios para tentar mitigar o desastre; temos o sol, a tecnologia e os recursos necessários. Porém, talvez não tenhamos altruísmo suficiente, somos egoístas por natureza. Somos ávidos por energia e precisamos desesperadamente dela em volumes cada vez maiores para sustentar o modo de vida suntuoso que criamos, custe o que custar, ainda que o preço seja o futuro. Se não obtivermos a energia de que precisamos de forma sustentável, é certo que não chegaremos à um bom lugar. É uma simples equação matemática, não uma crença sobre a qual cabe discussão.

A energia solar e todas as outras fontes de energia que dela derivam – como eólica, hídrica e biomassa – são o caminho óbvio que temos que trilhar. Nossa estrela está logo ali e não sairá de lá pelos próximos 5 bilhões de anos para nos fornecer com folga toda a energia que sonharmos em usar. Seremos nós, os Estranhos sapiens, capazes de virar o jogo? É possível que ainda nos reste tempo, mas temos que correr.

Os maiores parasitas do planeta

Se nós, os sapiens, fôssemos extintos amanhã, não faríamos muita falta por aqui. A bem da verdade, não faríamos falta alguma. Pelo contrário, o nosso sumiço seria a redenção para a enorme maioria de todos os outros seres vivos que habitam o planeta Terra. Nós não somos a base de alguma cadeia alimentar, portanto nenhum predador passaria fome. Assim como não somos o topo, então nenhuma presa se multiplicaria de forma descontrolada pela ausência de seus predadores. Talvez alguns parasitas, esses sim, sentissem a nossa falta, pois teriam que procurar novas opções de hospedagem. Os animais de estimação creio que também sentiriam a nossa falta, porém no máximo até a geração seguinte, já que essa deixaria de ser de estimação e rapidamente voltaria às suas origens selvagens.

Sem os sapiens colocando pressão sobre tudo e todos, em pouco tempo a flora e a fauna se regenerariam de forma intensa. Após milênios de ocupação e domínio humano, muitas coisas seriam diferentes do que eram antes de nós; as relações entre milhares de espécies precisaria ser reequilibrada, já que com a nossa ação – especialmente nos últimos 5 séculos, quando começamos a cruzar os oceanos em caravelas levando espécies exóticas de animais, plantas e bactérias de um lado para o outro – tudo ficou um tanto bagunçado. Seria apenas uma questão de tempo para que uma nova ordem se instalasse entre os seres vivos e a vida seguisse em sua trajetória padrão; espécies que sofrem mutações e evoluem, ficam, espécies que não mudam e não se adaptam, saem.

Ao longo da jornada evolutiva da vida, estima-se que bilhões de espécies foram extintas, cerca de 99% de todas as espécies que já existiram. A extinção é parte natural do processo, mas nós conseguimos eliminar da face do planeta uma quantidade impressionante de outros seres vivos, sem que os mesmos tivessem quaisquer chances de defesa ou adaptação. Determinar em quanto aumentamos a taxa de extinção das espécies é um cálculo extremamente difícil, mas é consenso de que o crescimento foi exponencial. Caçamos e pescamos em níveis absolutamente incompatíveis com a capacidade regenerativa de nossas presas. Derrubamos milhões de quilômetros quadrados de floresta para implantar nossas cidades, minas, pastagens e lavouras. Acidificamos os oceanos, contribuindo seriamente para a perda de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de recifes de corais. Nos tornamos, em última análise, os maiores parasitas da história; não estamos simplesmente prejudicando a nós mesmos, estamos colocando em risco a própria existência da vida.

Não apenas caçamos, pescamos e derrubamos em excesso, estamos efetivamente alterando completamente as condições atmosféricas da Terra. Em pouco menos de 300 anos, sacamos do subsolo mais de 4o0 bilhões de toneladas de carbono e liberamos quase tudo de uma vez na atmosfera em forma de dióxido de carbono (CO2), provocando um efeito estufa responsável por elevar a temperatura média no planeta a níveis alarmantes. Há meros 100 anos, inventamos uma classe de moléculas, os clorofluorcarbonetos (CFCs), e em poucas décadas já tínhamos conseguido abrir buracos em nossa preciosa camada de ozônio; a melhor proteção que temos contra o excesso de exposição aos raios ultravioletas da luz solar. O volume colossal de resíduos que geramos com nossos hábitos e necessidades conseguiu, em pouquíssimo tempo, comprometer a qualidade das águas em quase todos os grandes rios que atravessam os continentes. Não há um oceano sequer, nenhum canto remoto, onde não se possa encontrar micropartículas de plástico.

Somos um fenômeno, é um fato, o que conquistamos, aprendemos, inventamos e construímos são façanhas inacreditáveis. A curiosidade humana e a ciência nos levaram a atingir o que era antes inatingível, ou mesmo inconcebível. Hoje somos capaz de viver submersos nas profundezas dos mares, de cruzar o planeta voando em questão de horas, e até de nos lançar para fora dele a bordo de foguetes. Aos poucos fomos descobrindo como quase tudo no planeta funciona. Descobrimos como nós mesmos funcionamos, como doenças podem ser curadas e como estender a nossa expectativa de vida por anos. Porém, nas últimas décadas, começamos a nos dar conta que o custo de tantas dessas nossas invenções maravilhosas, que nos proporcionam eficiência e conforto sem precedentes, é altíssimo. Estamos efetivamente nos colocando em sérios apuros.

Somos estranhos, temos que admitir. Somos dotados de uma inteligência incrivelmente capaz e ao mesmo tempo de uma estupidez sem paralelo no reino animal. Somos a única espécie capaz de transformar o meio onde existe até que ele possa se tornar inabitável (talvez isso também valha para alguns parasitas, que predam inadvertidamente seus hospedeiros até que os mesmos sejam varridos do mapa e eles, os parasitas, desapareçam por tabela). Gastamos boa parte das nossas mentes mais brilhantes em frentes tolas, como inventar novas armas para nos aniquilarmos em massa ou construir máquinas mais poderosas para explorarmos mais rápido os recursos finitos do planeta, quando poderíamos unir esforços para chegarmos a lugares muito melhores. Somos mesmo estranhos, os Estranhos sapiens.

A Era das Inteligências

“Inteligência é a capacidade de compreender, aprender, raciocinar, adaptar-se a novas situações, resolver problemas e utilizar o conhecimento adquirido para alcançar objetivos específicos. Ela envolve uma variedade de habilidades cognitivas, como percepção, memória, atenção, lógica e criatividade. […] Inteligência é a habilidade de processar informações de forma eficaz e utilizar esse processamento para realizar ações ou tomar decisões”.

Essa definição não é minha e nem foi extraída de uma fonte especializada em ciências humanas, cognição ou neurologia. É a resposta que obtive do ChatGPT ao pedir: “Chat, defina inteligência”.

Inteligências Artificiais são algo sem paralelo em nossa história; um divisor de águas, algo que, na esteira da internet – que conectou quase tudo e todos no planeta – definitivamente inaugura uma nova Era da humanidade. Inteligências Artificiais mudam tudo, assim como o domínio do fogo e invenção da escrita mudaram. Nada mais será como antes; nenhuma profissão passará ilesa, nenhum ser humano deixará de sentir o impacto, positivo ou negativo, do que já está em curso. Provavelmente nem nos demos conta ainda do que isso realmente significará em um curto espaço de tempo. Não basta ouvir ou ler sobre o tema, é preciso experienciar a interação com uma IA para se ter ideia mais clara do que elas de fato são; quais as suas capacidades e possibilidades. Trocar idéias com uma inteligência não humana sobre os mais variados temas tem sido uma experiência única até aqui. No entanto, por mais impressionante que seja, logo a façanha tecnológica será normalizada e nos sentiremos fazendo algo trivial, assim como hoje nos sentimos quando conectamos à rede ou conversarmos com alguém do outro lado mundo em um telefone celular. Conversar com diferentes formas de Inteligências Artificiais se tornará tão banal e real que em algum ponto talvez nem nos preocupemos mais em distinguir claramente com quem estamos interagindo.

A evolução tecnológica é exponencial, e isso significa que tecnologia gera tecnologia em uma escalada cada vez mais pronunciada. Passaram talvez 2 milhões de anos desde que os primeiros hominídeos lascaram pedras – para servirem como armas e ferramentas – até que descobríssemos como usar o fogo em nosso favor. Transcorreram algumas centenas de milhares de anos até que conseguíssemos desenvolver uma linguagem articulada, possibilitando comunicações bem mais complexas entre nós, há cerca de 100 mil anos. Alguma dezenas de milhares de anos mais e demos início à Revolução Agrícola, domesticando plantas e animais; deixamos de ser caçadores-coletores nômades e fundamos as primeiras civilizações. Foram necessários ainda alguns poucos de milhares de anos para inventarmos a roda, a escrita e a metalurgia do bronze e do ferro. Nesse ponto já havíamos nos transformado completamente. Depois, não passavam muitos séculos até que grandes inovações tecnológicas surgissem. Da Revolução Industrial pra cá, apenas 200 anos atrás, nossos saltos passaram a ser medidos em décadas. Hoje, é possível que já se possa dizer que bastam anos para que poderosas novas revoluções aconteçam.

Foi-se o tempo em que era possível acreditar que máquinas jamais nos alcançariam; que certas áreas do conhecimento estavam reservadas exclusivamente a nós, os incríveis sapiens, a espécie que reinou absoluta no planeta pelos últimos 200.000 anos. Não é mais uma realidade, sob muitos aspectos, já fomos largamente ultrapassados por nossas próprias criações. E aonde não fomos ainda superados, é apenas uma questão de tempo. Quando a IBM desenvolveu um supercomputador para desafiar o melhor jogador de xadrez do mundo, quase na virada do milênio, muita gente duvidou que o sucesso fosse possível. Falhou na primeira tentativa, talvez na segunda e na terceira, mas o inevitável logo aconteceu. Agora, passados menos de 30 anos desde que o Deep Blue derrotou Garry Kasparov, provavelmente qualquer smartphone moderno seja capaz de derrotar os melhores enxadristas do mundo. E isso não surpreende mais ninguém, tornou-se óbvia a superioridade.

Parece desolador, ou assustador, constatar que poderemos, em breve, nos tornar obsoletos; que máquinas podem, ou poderão, ser melhores do que nós em qualquer atividade que exija processamento de dados, memória, lógica, precisão e, por que não… criatividade. No entanto, essa sensação, de sermos substituíveis, não é realmente nova, já sentimos isso antes ao longo da história. A cada grande revolução tecnológica trabalhos desaparecem e trabalhos surgem. Novo é o fato de que agora, em maior ou menor grau, sentiremos isso coletivamente.

Precisaremos nos adaptar a uma nova realidade. Não pior ou melhor, simplesmente diferente. Inteligências Artificiais vão muito além de capacidade e velocidade para processar uma infinidade de dados e manter um banco de informações inesgotável ao alcance instantâneo. IAs são capazes de aprender, fazer associações inteiramente novas e tomar decisões. Por hora somos nós, os sapiens, que as concebemos, treinamos e gerenciamos, mas não será assim para sempre. Provavelmente algum dia não sejamos mais necessários nessa função. Talvez nos tornemos seres híbridos, capazes de integrar inteligências humanas e artificiais. IAs nos ajudarão a compreender mais sobre nós mesmos e sobre o universo onde existimos. Quem sabe até nos ajudarão a encontrar a tempo meios para mantermos o planeta habitável depois de tantos séculos de degradação contínua. Inteligências Artificiais serão imprescindíveis em nossas explorações espaciais e na eterna busca que temos pelo desconhecido. Dependeremos delas, sim, mas não seremos simplesmente passageiros de algo que não controlaremos; não é do nosso feitio, a adaptação é inerente à nossa espécie. Caberá a nós, humanos, um papel diferente no mundo, algo ainda a ser descoberto.

E para nós, o que sobrará ao final?

Eu não sei, é claro, ninguém sabe, é uma pergunta sem resposta. A previsibilidade do futuro talvez seja cada vez mais curta, ironicamente em uma proporção inversa a velocidade em que o conhecimento humano e, especialmente, o não humano, avança. Podemos tentar ter uma vaga ideia se formos capazes de, considerando trajetórias do passado até aqui, imaginarmos com alguma lógica para onde estamos indo, ou o que, por fim, de bom ou de ruim, restará para para nós, Estranhos sapiens.

O tempo não tem realmente um fim, ou começo, então vamos apenas pensar no fim de um grande ciclo da nossa espécie, que talvez se transforme em algo novo, ou talvez seja extinta, como tantas outra milhares de espécies que por esse planeta andaram, nadaram ou voaram. Não sairemos iguais, e talvez essa seja a única certeza que possamos ter.

Em alguns poucos milhares de anos, até onde sabemos, algo entre 200.000 e 300.000 anos, dominamos completamente o planeta; ocupamos quase todos os espaços, subjugamos todas as outras espécies vivas, eliminamos (ou nos misturamos com) os nossos concorrentes hominídeos, inventamos uma infinidade de ferramentas e objetos que tornaram nossas vidas imensamente mais fáceis e eficientes. Nos organizamos em grupos cada vez maiores, mais poderosos, mais ávidos por territórios e domínios. Criamos, do nada, conceitos como riqueza, fronteiras, religião e leis. A vida humana se tornou mais complexa e longa. A ciência nos dá a cada dia mais consciência de como a nossa própria existência funciona.

E, contudo, estamos chegando na beira do abismo. E não se trata de chegar à beira de qualquer abismo, de novo. Dessa vez o abismo pode não significar somente o fim para uma tribo, um povo ou um império, podemos estar caminhando coletivamente para um abismo muito maior, que colocará de fato em risco, não só a nossa jovem espécie, e sim toda a vida no planeta, ao menos como a conhecemos hoje.

Escrevo com o propósito de compartilhar pensamentos e conhecimentos. Escrever, e ler – com certeza entre as nossas mais extraordinárias invenções – nos possibilitou transmitir e receber mensagens com níveis de sofisticação cada vez maiores sobre os mais variados temas possíveis e imaginários. Todos os dias surgem sinais, notícias grandes ou pequenas, que nos dão pistas sobre os rumos que seguimos. Cabe aos curiosos, diante dessa infinidade de pequeninas peças, contribuir para tentar montar, ainda que mínimas partes, mais um pouco do imenso e indecifrável quebra-cabeças da nossa história.