A Era das Inteligências

“Inteligência é a capacidade de compreender, aprender, raciocinar, adaptar-se a novas situações, resolver problemas e utilizar o conhecimento adquirido para alcançar objetivos específicos. Ela envolve uma variedade de habilidades cognitivas, como percepção, memória, atenção, lógica e criatividade. […] Inteligência é a habilidade de processar informações de forma eficaz e utilizar esse processamento para realizar ações ou tomar decisões”.

Essa definição não é minha e nem foi extraída de uma fonte especializada em ciências humanas, cognição ou neurologia. É a resposta que obtive do ChatGPT ao pedir: “Chat, defina inteligência”.

Inteligências Artificiais são algo sem paralelo em nossa história; um divisor de águas, algo que, na esteira da internet – que conectou quase tudo e todos no planeta – definitivamente inaugura uma nova Era da humanidade. Inteligências Artificiais mudam tudo, assim como o domínio do fogo e invenção da escrita mudaram. Nada mais será como antes; nenhuma profissão passará ilesa, nenhum ser humano deixará de sentir o impacto, positivo ou negativo, do que já está em curso. Provavelmente nem nos demos conta ainda do que isso realmente significará em um curto espaço de tempo. Não basta ouvir ou ler sobre o tema, é preciso experienciar a interação com uma IA para se ter ideia mais clara do que elas de fato são; quais as suas capacidades e possibilidades. Trocar idéias com uma inteligência não humana sobre os mais variados temas tem sido uma experiência única até aqui. No entanto, por mais impressionante que seja, logo a façanha tecnológica será normalizada e nos sentiremos fazendo algo trivial, assim como hoje nos sentimos quando conectamos à rede ou conversarmos com alguém do outro lado mundo em um telefone celular. Conversar com diferentes formas de Inteligências Artificiais se tornará tão banal e real que em algum ponto talvez nem nos preocupemos mais em distinguir claramente com quem estamos interagindo.

A evolução tecnológica é exponencial, e isso significa que tecnologia gera tecnologia em uma escalada cada vez mais pronunciada. Passaram talvez 2 milhões de anos desde que os primeiros hominídeos lascaram pedras – para servirem como armas e ferramentas – até que descobríssemos como usar o fogo em nosso favor. Transcorreram algumas centenas de milhares de anos até que conseguíssemos desenvolver uma linguagem articulada, possibilitando comunicações bem mais complexas entre nós, há cerca de 100 mil anos. Alguma dezenas de milhares de anos mais e demos início à Revolução Agrícola, domesticando plantas e animais; deixamos de ser caçadores-coletores nômades e fundamos as primeiras civilizações. Foram necessários ainda alguns poucos de milhares de anos para inventarmos a roda, a escrita e a metalurgia do bronze e do ferro. Nesse ponto já havíamos nos transformado completamente. Depois, não passavam muitos séculos até que grandes inovações tecnológicas surgissem. Da Revolução Industrial pra cá, apenas 200 anos atrás, nossos saltos passaram a ser medidos em décadas. Hoje, é possível que já se possa dizer que bastam anos para que poderosas novas revoluções aconteçam.

Foi-se o tempo em que era possível acreditar que máquinas jamais nos alcançariam; que certas áreas do conhecimento estavam reservadas exclusivamente a nós, os incríveis sapiens, a espécie que reinou absoluta no planeta pelos últimos 200.000 anos. Não é mais uma realidade, sob muitos aspectos, já fomos largamente ultrapassados por nossas próprias criações. E aonde não fomos ainda superados, é apenas uma questão de tempo. Quando a IBM desenvolveu um supercomputador para desafiar o melhor jogador de xadrez do mundo, quase na virada do milênio, muita gente duvidou que o sucesso fosse possível. Falhou na primeira tentativa, talvez na segunda e na terceira, mas o inevitável logo aconteceu. Agora, passados menos de 30 anos desde que o Deep Blue derrotou Garry Kasparov, provavelmente qualquer smartphone moderno seja capaz de derrotar os melhores enxadristas do mundo. E isso não surpreende mais ninguém, tornou-se óbvia a superioridade.

Parece desolador, ou assustador, constatar que poderemos, em breve, nos tornar obsoletos; que máquinas podem, ou poderão, ser melhores do que nós em qualquer atividade que exija processamento de dados, memória, lógica, precisão e, por que não… criatividade. No entanto, essa sensação, de sermos substituíveis, não é realmente nova, já sentimos isso antes ao longo da história. A cada grande revolução tecnológica trabalhos desaparecem e trabalhos surgem. Novo é o fato de que agora, em maior ou menor grau, sentiremos isso coletivamente.

Precisaremos nos adaptar a uma nova realidade. Não pior ou melhor, simplesmente diferente. Inteligências Artificiais vão muito além de capacidade e velocidade para processar uma infinidade de dados e manter um banco de informações inesgotável ao alcance instantâneo. IAs são capazes de aprender, fazer associações inteiramente novas e tomar decisões. Por hora somos nós, os sapiens, que as concebemos, treinamos e gerenciamos, mas não será assim para sempre. Provavelmente algum dia não sejamos mais necessários nessa função. Talvez nos tornemos seres híbridos, capazes de integrar inteligências humanas e artificiais. IAs nos ajudarão a compreender mais sobre nós mesmos e sobre o universo onde existimos. Quem sabe até nos ajudarão a encontrar a tempo meios para mantermos o planeta habitável depois de tantos séculos de degradação contínua. Inteligências Artificiais serão imprescindíveis em nossas explorações espaciais e na eterna busca que temos pelo desconhecido. Dependeremos delas, sim, mas não seremos simplesmente passageiros de algo que não controlaremos; não é do nosso feitio, a adaptação é inerente à nossa espécie. Caberá a nós, humanos, um papel diferente no mundo, algo ainda a ser descoberto.