Dois passos para frente, um para trás

Nenhuma novidade. Há centenas de milhares de anos andamos para frente no jogo da evolução, mas, eventualmente, contra toda a lógica, fazemos o caminho inverso e regredimos algumas casas. Às vezes, até muitas casas. Assim caminha a humanidade desde o início, dois passos para frente, um para trás. A evolução não é uma progressão linear e de tempos em tempos pode sofrer revezes inesperados. Conhecimentos adquiridos, direitos conquistados ou períodos de paz consolidados estão sujeitos a sofrerem abalos repentinos e serem soterrados por escombros por um longo período, até que um dia, quem sabe com sorte ou determinação, possam ser reencontrados por aqueles que jamais esqueceram o que foi aprendido.

Difícil compreender como o mundo luminoso da Grécia Antiga, berço da democracia e do pensamento filosófico e científico ocidental, descambou para os retrocessos da Idade Média mil e quinhentos anos depois. Ou então, como a Pérsia, hoje Irã, que no século XI era o centro mais avançado do conhecimento médico humano, se transformou em uma ditadura islâmica mil anos após Ibn Sina. Também não é fácil entender como conhecimentos milenares chineses, do confucionismo ao budismo, foram massacrados pela Revolução Cultural Comunista meros 60 anos atrás. Ao invés de somarmos conhecimentos e avanços, miscigenarmos ideias e andarmos para frente, destruímos pontes apenas para termos de reconstruí-las em algum outro momento.

Somos estranhos, é verdade, a razão nem sempre é o nosso forte, mas o que está acontecendo conosco, a espécie que reina absoluta no planeta há dezenas de milhares de anos? Estamos refletindo pouco e brigando demais. É provável que no primeiro quarto do século XXI estejamos dando alguns desses largos passos para trás e abrindo mão de conquistas obtidas a duras penas por nossas gerações passadas – liberdades, igualdades, governos democráticos, livre mercado, secularismo, bem-estar social, consciência ambiental.

No momento em que as inteligências artificiais generativas prosperam em velocidade desconhecida e o clima do planeta em desequilíbrio nos ameaça, estamos derrubando a globalização e erguendo muros entre nós, os sapiens. Como entender o que acontece com os Estados Unidos da América? A mais longeva democracia do planeta, viva desde 1776, tornou-se refém do extremismo nacionalista e deixou-se levar por promessas imediatistas de resgate a um passado glorioso. Não existe um passado glorioso a ser resgatado. A história é imperfeita e repleta de altos e baixos. Os Estados Unidos, a maior potência econômica, militar, política e cultural dos últimos 100 anos, viviam até aqui um momento fantástico, não havia um passado glorioso a ser perseguido, isso é populismo raso. O que havia era um presente a ser melhorado não desprezando-se o caminho percorrido até este instante.

Bater nos amigos, especialmente nos melhores, ao mesmo tempo em que se ameaça os inimigos, não está no manual dos sábios. Acenar apenas para uma pequena parcela da larga base que o sustenta também não está nesse manual. Solapar direitos constitucionais e corroer princípios democráticos, já isso faz parte de um outro manual, o dos autocratas. Promessas de anexações territoriais pela força, desmonte de agências reguladoras e ataques a instituições científicas, igualmente fazem parte desse mesmo manual.

Talvez tenhamos avançado rápido demais em causas progressistas e acabamos nos perdendo em nossos próprios ganhos. Liberdades foram confundidas com um vale-tudo libertário. O excesso de políticas de bem-estar social tornou-se um convite à vida sem grandes esforços e um fardo aos cofres públicos. Movimentos migratórios descontrolados exaltaram os ânimos. Causas ambientais foram politizadas e perderam-se do equilíbrio necessário entre progresso e preservação. Bom senso, honestidade, empatia, ética, solidariedade, racionalidade, coletividade e trabalho duro, tornaram-se valores obsoletos?

Nós e o mundo que criamos somos metamorfoses ambulantes. Ao longo dos nossos milhares de anos de história demonstramos uma capacidade espetacular de adaptação, inovação e resiliência. Somos dotados de uma criatividade sem limites e uma força interior que transcende apenas os nossos instintos de sobrevivência. No entanto, se a despeito de todas essas qualidades, não formos capazes de nos unir e somar, é possível que os próximos dois passos para frente estejam reservados somente para as nossas próximas gerações.

Pátria ou razão?

Não faz muito tempo não havia linha alguma no mapa. Na verdade, não havia mapa algum. Vivíamos como qualquer outro animal, nos locomovendo livremente de um lado a outro, movidos apenas por necessidades básicas de alimentação, reprodução ou segurança. Nosso único senso de pertencimento era com nossos pequenos grupos familiares nômades. A não ser por medo ou falta de interesse, não havia impedimentos para irmos a qualquer lugar que desejássemos ir. Mas coisa de 12 mil anos atrás, na região do Crescente Fértil (hoje, partes do Oriente Médio), alguns de nós, sapiens, começaram a perceber os benefícios de fincar raízes em um pedaço de chão e aos poucos aprendemos a domesticar plantas e animais. Até que deixássemos definitivamente para trás os nossos mais de 200.000 anos como caçadores-coletores nômades e fizéssemos a transição completa para o sedentarismo e desenvolvêssemos civilizações em todas as regiões do mundo, no entanto, levaria ainda mais alguns milhares de anos.

A partir do momento que nos fixamos e tornamos nossas ocupações mais complexas, não é difícil imaginar que logo surgiram os primeiros traços – de início em tábuas de pedra ou argila – com representações rudimentares de nossos assentamentos e entornos. Passamos a tomar posse de regiões, nomeando e demarcando territórios. À medida que as civilizações se tornavam mais e mais sofisticadas, assim também se tornavam os mapas. Surgiu a cartografia. Porções de terra e água começaram a ser identificadas: continentes, oceanos, ilhas, rios, desertos, mares e montanhas. O mundo passou a ser medido e quantificado.

Os caprichos humanos, no entanto, jamais permitiram que houvesse entre nós algum tipo de divisão justa dos espaços. Somos seres migratórios e territoriais por natureza. Guerras e conquistas são parte da história humana desde o início e assim continuarão sendo. Mesmo que por diversas gerações determinada região pertença a um grupo étnico ou religioso, territórios mudam de mãos o tempo todo. Quando se pensa em uma escala temporal ampla, não há qualquer canto no globo que não tenha trocado de domínio diversas vezes.

No ano 100 d.C., por exemplo, nenhum cidadão romano seria capaz de vislumbrar um fim para sua gloriosa pátria. O Império Romano vivia seu auge, uma fortaleza invencível e moderna que dominava vastas extensões de terra, incluindo grande parte da Europa, o sudoeste asiático e o norte da África. A totalidade do Mar Mediterrâneo estava sob seu domínio, não havia qualquer motivo razoável para crer em queda. Mas um dia – em um processo que levaria séculos – o império ruiria. Alguém nascido hoje português, croata, tunisiano ou libanês, 2 mil anos atrás poderia ter nascido romano. Quem pode afirmar qual nacionalidade terá alguém nascido nesses mesmos pontos geográficos daqui a 200 anos? Isso é a história humana, tudo o que parece ser o ponto final das divisões políticas dos estados e nações é apenas uma vírgula, uma situação transitória, algo que será inevitavelmente alterado em algum momento adiante.

Os Estados Unidos, a maior potência militar e econômica desde o final da 2ª Guerra, seguirão unidos para sempre? A China, deterá seu próprio avanço sobre nações vizinhas algum dia? Estarão famílias coreanas separadas para sempre? O que será de tantas nações africanas, com muitas de suas fronteiras atuais forjadas em negociações inconsequentes tratadas por seus ex-ocupantes europeus? E quanto as autocracias do Oriente Médio, até quando serão propriedades de famílias? A lista de indagações é enorme, mas a única certeza é que muitas linhas no mapa político serão apagadas enquanto outras tantas serão criadas. Povos apartados pela força talvez voltem a se unir um dia, enquanto outros, hoje unidos a contragosto, se apartem.

A percepção de que tudo muda, e portanto, o fato de que o país ao qual pertencemos hoje pode ser outra coisa amanhã, é valiosa para mitigarmos nacionalismos exacerbados. Quase todos nós temos uma pátria, um país ao qual pertencemos. Aprendemos a nos tornar patriotas, saudar nossas bandeiras e acreditar que por ela, a pátria, devemos respeito e até nossas vidas se for o caso. Se vivemos sob as mesmas leis e costumes, compartilhamos a mesma língua, a mesma moeda e os mesmos dirigentes, é natural nos sentirmos parte de um grande grupo de outros seres humanos abrigados dentro das mesmas fronteiras. Mas as fronteiras não foram sempre essas e não serão assim pelo resto da história. Se as coisas não mudarem para nós, nossos filhos ou netos, talvez para nossos bisnetos algo seja diferente.

Se algumas nações já acumulam séculos de história e patriotismo, outras saíram do forno ontem. Certos Estados, que para qualquer um de nós que não seja um centenário, parecem existir desde sempre, na realidade são jovens, muito jovens. Algumas nações não tem sequer 80 anos, nascidas no pós-guerra, outras são ainda mais novas. Apesar das origens antiquíssimas, Líbano e Síria não são nações antiquíssimas. Judeus e palestinos, ainda que reivindiquem ocupações milenares, não estão lá desde sempre. Arábia Saudita e Iraque, por mais que a história de seus povos beduínos nômades remonte milhares de anos, não surgiram com o deserto. Suas fronteiras são quase todas linhas novas em mapas modernos. Se voltássemos ao ano 1.000 d.C., todos esses países fariam parte do Califado Abássida.

Apesar dos avanços da Rússia sobre a Ucrânia ou das ameaças da China sobre Taiwan, guerras de conquistas hoje são muito menos aceitáveis em um mundo arbitrado em boa parte por organizações multilaterais. Mas há ebulições internas, conflitos religiosos e interesses sobre recursos naturais preciosos. Milhares de quilômetros de fronteiras permanecem em disputa entre países. Há ainda um continente inteiro sem dono a ser fatiado entre as nações que, por hora, apenas fincaram bandeiras e montaram bases para estudos científicos. Quem duvida, especialmente em um planeta em rápido aquecimento, que a Antártica, uma porção de terra quase do tamanho da América do Sul, com vastas áreas cobertas por gelo prestes a se tornarem habitáveis, poderá um dia se tornar uma miríade de novos países?

Até quando o próprio conceito de fronteiras nacionais seguirá válido? Um dia extravasaremos o planeta Terra e tentaremos colonizar outros cantos universo afora. Começaremos pela Lua ou talvez por Marte, depois iremos atrás de mais. É possível que em algum momento encontremos resistência de outras formas de vida. Quando tivermos todos uma luta em comum, deixaremos então de ser brasileiros, japoneses ou alemães e seremos então apenas terráqueos ? Seria bom que a pátria jamais precedesse a razão, mas continuamos a ser os mesmos estranhos de sempre, os Estranhos sapiens.

Elevando a temperatura

Não somos seres pacíficos. A paz é desejada pela maioria de nós, é verdade, mas essa não é a natureza animal dos sapiens. A paz vem com a razão, e a razão talvez seja algo raro entre nós. Desde o início de nossas vidas lidamos com disputas, de pequenas a grandes, e quanto mais emocionais nos encontramos, de formas mais agressivas reagimos. Temos uma tendência inata em defender nossa prole, nossos territórios e nossos alimentos, custe o que custar. Certas causas parecem justas, e são, mas a linha que divide o que é justo e o que não é pode ser muito tênue. E nós, os sapiens, somos bons em inventar motivos que justifiquem atuarmos em prol dos nossos interesses, atropelando a razão, mesmo que esses sejam conscientemente injustos.

Em nossos milhares de anos de história, nunca estivemos verdadeiramente em paz, temos apenas períodos de relativa tranquilidade quando há um equilíbrio das forças dominantes. Em grande parte do mundo hoje, a depender de onde vivemos, temos uma certa sensação de paz e nos sentimos distantes da realidade de uma guerra em grande escala. Em junho desse ano, 2024, quando a Europa celebrou os 80 anos do desembarque das tropas aliadas na Normandia, o ponto de inflexão na Segunda Guerra Mundial, apenas um pequeno número de veteranos da batalha, quase todos centenários, esteve presente. Em breve, nenhuma pessoa viva trará em suas próprias memórias os horrores da guerra que, direta ou indiretamente, ceifou a vida de mais de 70 milhões de nós e impactou, em diferentes graus, todos os cantos do planeta. E, por mais que tenhamos incontáveis testemunhos e registros áudio visuais, nada tem maior poder de dissuasão do que a memória.

No entanto, ouvir sobre sentir-se em razoável paz certamente soa chocante para um número imenso e crescente de seres humanos que vivem em zonas de guerras e conflitos. Uma breve pesquisa basta para deixar claro o nível de tensão e violência entre nós; segundo cálculos das Nações Unidas, cerca de 2 bilhões de pessoas, ou assustadores 25% de todos os sapiens, vivem em locais críticos. Se tivemos algum equilíbrio entre superpotências no pós-guerra – apesar dos muitos confrontos por procuração durante todo o período da Guerra Fria – isso agora é parte da história, o mundo está se rearranjando. E isso, infelizmente, não acontece sem disputas. A razão não prevalece em um número suficientemente grande de pessoas para que guerras sejam evitadas.

Gostaria de esbanjar mais otimismo, como o fazia até pouco tempo atrás, desde quando aprendi que, historicamente, nunca duas democracias (verdadeiras) entraram em guerra. Essa pode até ser ainda uma máxima válida, mas estamos testemunhando uma quantidade crescente de nações caminhando para extremos, corroendo processos democráticos conquistados a duras penas. Não estamos mais divididos em capitalismo versus comunismo; URSS não existe mais, a China hoje é segunda economia do planeta. Por mais que os conceitos de direita e esquerda existam, são panos de fundo para algo muito mais explosivo; o flerte de povos democráticos com extremismos nacionalistas e o alinhamento das grandes autocracias. Estamos perigosamente elevando a temperatura geopolítica.

Se de um lado temos a Rússia, a China e o Irã, ampliando seus interesses regionais e arrastando para suas esferas de influência todas as outras autocracias menores, para as quais não resta outro caminho, do outro estão os Estados Unidos, a Europa e as nações do Pacífico, observando em estado de nervos o que se desenrola, correndo atrás do tempo perdido em erros estratégicos de defesa e reorganizando alianças, tentando manter coesas o resto das nações que ainda enxergam o valor de suas liberdades. É uma visão simplificada, sem dúvida, já que no meio do caminho há uma série de países sem um alinhamento claro e automático com um ou outro bloco. Monarquias do Oriente Médio, ditaduras africanas e centro americanas, sudeste asiático, Índia-Paquistão; são colchas de retalhos, há de tudo um pouco e muito a ser resolvido.

A guerra russa na Ucrânia, as ameaças chinesas sobre Taiwan e o barril de pólvora Israel-Palestina atiçado pelo patrocínio iraniano a grupos radicais, todos ao mesmo tempo, configuram um momento extremamente inflamável. Basta um passo em falso para uma reação em cadeia feito 1914, exatos 110 anos atrás, quando vivíamos um mundo em prosperidade, inebriados com os avanços sem paralelo proporcionados pela revolução industrial, jamais seríamos capazes de imaginar o que estava por vir. Fazia, naquela época, 1 século que a Europa estava em paz, a guerra parecia ter tornado-se obsoleta. Quando estamos com os nervos a flor da pele, tudo pode acontecer.