Os maiores parasitas do planeta

Se nós, os sapiens, fôssemos extintos amanhã, não faríamos muita falta por aqui. A bem da verdade, não faríamos falta alguma. Pelo contrário, o nosso sumiço seria a redenção para a enorme maioria de todos os outros seres vivos que habitam o planeta Terra. Nós não somos a base de alguma cadeia alimentar, portanto nenhum predador passaria fome. Assim como não somos o topo, então nenhuma presa se multiplicaria de forma descontrolada pela ausência de seus predadores. Talvez alguns parasitas, esses sim, sentissem a nossa falta, pois teriam que procurar novas opções de hospedagem. Os animais de estimação creio que também sentiriam a nossa falta, porém no máximo até a geração seguinte, já que essa deixaria de ser de estimação e rapidamente voltaria às suas origens selvagens.

Sem os sapiens colocando pressão sobre tudo e todos, em pouco tempo a flora e a fauna se regenerariam de forma intensa. Após milênios de ocupação e domínio humano, muitas coisas seriam diferentes do que eram antes de nós; as relações entre milhares de espécies precisaria ser reequilibrada, já que com a nossa ação – especialmente nos últimos 5 séculos, quando começamos a cruzar os oceanos em caravelas levando espécies exóticas de animais, plantas e bactérias de um lado para o outro – tudo ficou um tanto bagunçado. Seria apenas uma questão de tempo para que uma nova ordem se instalasse entre os seres vivos e a vida seguisse em sua trajetória padrão; espécies que sofrem mutações e evoluem, ficam, espécies que não mudam e não se adaptam, saem.

Ao longo da jornada evolutiva da vida, estima-se que bilhões de espécies foram extintas, cerca de 99% de todas as espécies que já existiram. A extinção é parte natural do processo, mas nós conseguimos eliminar da face do planeta uma quantidade impressionante de outros seres vivos, sem que os mesmos tivessem quaisquer chances de defesa ou adaptação. Determinar em quanto aumentamos a taxa de extinção das espécies é um cálculo extremamente difícil, mas é consenso de que o crescimento foi exponencial. Caçamos e pescamos em níveis absolutamente incompatíveis com a capacidade regenerativa de nossas presas. Derrubamos milhões de quilômetros quadrados de floresta para implantar nossas cidades, minas, pastagens e lavouras. Acidificamos os oceanos, contribuindo seriamente para a perda de dezenas de milhares de quilômetros quadrados de recifes de corais. Nos tornamos, em última análise, os maiores parasitas da história; não estamos simplesmente prejudicando a nós mesmos, estamos colocando em risco a própria existência da vida.

Não apenas caçamos, pescamos e derrubamos em excesso, estamos efetivamente alterando completamente as condições atmosféricas da Terra. Em pouco menos de 300 anos, sacamos do subsolo mais de 4o0 bilhões de toneladas de carbono e liberamos quase tudo de uma vez na atmosfera em forma de dióxido de carbono (CO2), provocando um efeito estufa responsável por elevar a temperatura média no planeta a níveis alarmantes. Há meros 100 anos, inventamos uma classe de moléculas, os clorofluorcarbonetos (CFCs), e em poucas décadas já tínhamos conseguido abrir buracos em nossa preciosa camada de ozônio; a melhor proteção que temos contra o excesso de exposição aos raios ultravioletas da luz solar. O volume colossal de resíduos que geramos com nossos hábitos e necessidades conseguiu, em pouquíssimo tempo, comprometer a qualidade das águas em quase todos os grandes rios que atravessam os continentes. Não há um oceano sequer, nenhum canto remoto, onde não se possa encontrar micropartículas de plástico.

Somos um fenômeno, é um fato, o que conquistamos, aprendemos, inventamos e construímos são façanhas inacreditáveis. A curiosidade humana e a ciência nos levaram a atingir o que era antes inatingível, ou mesmo inconcebível. Hoje somos capaz de viver submersos nas profundezas dos mares, de cruzar o planeta voando em questão de horas, e até de nos lançar para fora dele a bordo de foguetes. Aos poucos fomos descobrindo como quase tudo no planeta funciona. Descobrimos como nós mesmos funcionamos, como doenças podem ser curadas e como estender a nossa expectativa de vida por anos. Porém, nas últimas décadas, começamos a nos dar conta que o custo de tantas dessas nossas invenções maravilhosas, que nos proporcionam eficiência e conforto sem precedentes, é altíssimo. Estamos efetivamente nos colocando em sérios apuros.

Somos estranhos, temos que admitir. Somos dotados de uma inteligência incrivelmente capaz e ao mesmo tempo de uma estupidez sem paralelo no reino animal. Somos a única espécie capaz de transformar o meio onde existe até que ele possa se tornar inabitável (talvez isso também valha para alguns parasitas, que predam inadvertidamente seus hospedeiros até que os mesmos sejam varridos do mapa e eles, os parasitas, desapareçam por tabela). Gastamos boa parte das nossas mentes mais brilhantes em frentes tolas, como inventar novas armas para nos aniquilarmos em massa ou construir máquinas mais poderosas para explorarmos mais rápido os recursos finitos do planeta, quando poderíamos unir esforços para chegarmos a lugares muito melhores. Somos mesmo estranhos, os Estranhos sapiens.