Uma estrela amarela anã. Para padrões do universo, não muito grande: 1.392.000 km de diâmetro (há por aí, galáxia afora, algumas gigantes com diâmetros que passam de 2 bilhões de quilômetros). Uma esfera de puro gás, basicamente 3/4 de hidrogênio e 1/4 hélio. Em seu núcleo, a 15 milhões de graus Celsius, reações de fusão nuclear convertem hidrogênio em hélio ininterruptamente há 4,6 bilhões de anos, gerando luz e calor na medida certa para que toda a vida no planeta seja possível.
Nosso Sol é só mais uma dentre um número incalculável de estrelas, mas para nós ele é tudo. E demos sorte de estarmos na distância exata; a 150.000.000 de quilômetros, pois caso contrário não haveria muita chance de existirmos no planeta. Para se ter uma ideia, se trocássemos de lugar com Netuno, 30 vezes mais distante do Sol do que nós, a temperatura média da superfície do planeta não passaria muito dos -214oC. Já se estivéssemos no lugar de Mercúrio, a meros 58 milhões de quilômetros do Sol, talvez experimentássemos temperaturas diurnas superiores a 400oC. Isso sem considerar que a atmosfera, como a conhecemos, seria alguma coisa completamente diferente.
A energia emanada pelo Sol é tamanha que recebemos por segundo, no topo da atmosfera, 1.361 W por metro quadrado – um número conhecido como constante solar. Mesmo considerando que cerca de 30% de toda essa energia que chega ao planeta é refletida de volta ao espaço, ainda assim absorvemos da nossa pequena estrela 121.450.000 GW de energia por segundo. Ainda que as medidas de energia não sejam tão fáceis de se compreender como medidas de distância e temperatura, se pensarmos que atualmente, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), consumimos em torno de 19.700 GW por segundo, então, em outras palavras, recebemos do Sol mais de 6.000 vezes a quantidade de energia do que todos nós, os sapiens, usamos atualmente. Isso significa que nossa estrela nos fornece gratuitamente uma quantidade imensamente maior de energia do que precisamos para realizarmos todas as nossas atividades humanas.
Porque então seguimos extraindo das profundezas bilhões de toneladas de carbono em forma de petróleo, gás natural e carvão para queimá-las? Quando o fazemos, o carbono que está retido há milhões de anos nesses combustíveis fósseis reage com o oxigênio presente na atmosfera e é liberado em forma de dióxido de carbono, o gás carbônico (CO2). O que torna o problema dramático é a velocidade estonteante com que estamos fazendo isso. Em menos 300 anos, desde o início da Revolução Industrial, quando descobrimos a eficiência energética da queima do carvão, já lançamos na atmosfera mais de 1 trilhão de toneladas de CO2, o que significa que do total de dióxido de carbono presente hoje no ar, mais de 1/3 fomos nós que adicionamos em uma fração de tempo quase irrelevante.
Para piorar o estrago, nós, os sapiens, que nos julgamos o supra-sumo da vida, estamos raspando da superfície terrestre, ou eliminando dos oceanos, os únicos seres vivos capazes de fazer o caminho inverso; transformar dióxido de carbono em carbono orgânico e liberar de volta na atmosfera oxigênio. Estima-se que mais de um terço de todas as florestas, responsáveis por quase 50% de toda a fixação de carbono do planeta, já tenham sido destruídas. Talvez metade da massa de fitoplâncton, responsável por outros quase 50%, também tenha sido perdida. Em outras palavras, conseguimos a façanha de reduzir drasticamente nossa capacidade de retirar gás carbônico da atmosfera e devolver a ela oxigênio, ao mesmo tempo em que seguimos adicionando descontroladamente ainda mais CO2. Como ainda podemos duvidar que isso nos levará inevitavelmente para o colapso do tênue equilíbrio do planeta?
Temos os meios para tentar mitigar o desastre; temos o sol, a tecnologia e os recursos necessários. Porém, talvez não tenhamos altruísmo suficiente, somos egoístas por natureza. Somos ávidos por energia e precisamos desesperadamente dela em volumes cada vez maiores para sustentar o modo de vida suntuoso que criamos, custe o que custar, ainda que o preço seja o futuro. Se não obtivermos a energia de que precisamos de forma sustentável, é certo que não chegaremos à um bom lugar. É uma simples equação matemática, não uma crença sobre a qual cabe discussão.
A energia solar e todas as outras fontes de energia que dela derivam – como eólica, hídrica e biomassa – são o caminho óbvio que temos que trilhar. Nossa estrela está logo ali e não sairá de lá pelos próximos 5 bilhões de anos para nos fornecer com folga toda a energia que sonharmos em usar. Seremos nós, os Estranhos sapiens, capazes de virar o jogo? É possível que ainda nos reste tempo, mas temos que correr.