Do escambo ao caos

Não somos mais capazes de imaginar como seria a vida sem ele. Não comemos, moramos ou nos vestimos se não o temos. De alimentos a computadores, de imóveis a corridas de taxi, é ele quem viabiliza todas as nossas transações. Precisamos dele para vender ou adquirir tudo o que produzimos ou necessitamos. Sem tê-lo como referência de valor, não saberíamos dizer se um saco de feijão vale mais ou menos do que um par de sapatos. Mas ele, o dinheiro, como conhecemos hoje, é apenas a expressão mais visível de uma das nossas criações mais geniais e perniciosas: o sistema monetário.

Durante as dezenas de milhares de anos que antecederam os nossos primeiros assentamentos, quando perambulávamos por aí apenas coletando e caçando alimentos, assim como qualquer outro primata, se algo nos interessava – como uma presa, um fruto ou uma pedra que pudesse servir como ferramenta – simplesmente pegávamos o que queríamos e saíamos andando. Caso alguém mais estivesse de olho na mesma coisa, talvez uma luta fosse necessária para resolver a disputa.

No entanto, em algum momento entendemos que poderíamos facilitar as coisas e, quem sabe, lutar menos. Poderíamos trocar as nossas posses; ora, se eu tenho duas pontas de lança para caçar, mas não tenho uma pele de cervo para me aquecer, porque não trocar com alguém esteja na situação inversa? Ou, se meu bando domina o entorno de uma fonte de água, porque não deixar o bando vizinho se abastecer em troca alimento fresco e utensílios de cerâmica? Simples, mas incrivelmente nenhum de nossos parentes hominídeos teve a mesma ideia. As primeiras trocas provavelmente tenham iniciado no Paleolítico, mas os vestígios mais antigos dos nossos primeiros escambos de bens e serviços têm uma relação direta com os primeiros assentamentos humanos, no início do período Neolítico, cerca de 12.000 anos atrás. Se considerarmos a escala do tempo da jornada dos sapiens no planeta até aqui, de pelo menos 200.000 anos, podemos dizer que faz bem pouco tempo que tivemos essa grande sacada.

O escambo foi uma revolução para que pudéssemos viabilizar nossas primeiras civilizações, porém, logo percebemos só isso era pouco. Nem sempre encontraríamos alguém com um par de sandálias disposto a trocá-las por um par de peixes. Por sinal, como faríamos para determinar o valor de cada bem ou serviço? Precisávamos atrelar valor à objetos que fossem universais e reconhecíveis por todos. Passamos por conchas, sal, grãos e até cacau como moedas-mercadoria. Ainda assim, não era suficiente, precisávamos de algo que não se deteriorasse, que fosse aceito por povos distantes e que pudesse manter seu valor intrínseco inalterado em qualquer lugar do mundo antigo ao longo de gerações. Percebemos então que metais seriam perfeitos para esse propósito. Por volta de 4.000 anos atrás, lingotes ou peças de ouro, prata e cobre passaram a funcionar amplamente como meio de troca. Entretanto, para garantir mais precisão em transações cada vez mais complexas entre diferentes regiões e reinos, precisávamos de padrões mais rígidos. As primeiras moedas cunhadas conhecidas surgiram no Reino da Lídia, hoje parte da Turquia, somente por volta de 600 a.C.

A essa altura, já havíamos tido a grande ideia de criar instituições não estatais onde pudéssemos depositar valores com segurança, emitir certificados de depósito privado que davam ao seu portador o direito de sacar uma determinada quantia e, quem sabe, até fazer um empréstimo para devolvê-lo um pouco mais adiante em troca de uma quantia maior – havíamos criado os bancos e os juros! No entanto, levaríamos mais mil e seiscentos anos até que inventássemos algo ainda mais surpreendente; o papel-moeda. Até então, moedas valiam o metal em que eram cunhadas, tinham valor intrínseco. Mas no século XI, a China começou a imprimir papéis com valor de face chancelados pelo Estado e lastreados em reservas metálicas. Moedas fiduciárias, que dependem da confiança que se tem em seu emissor, passariam a ser o padrão básico pelos séculos seguintes.

De lá pra cá a criatividade foi vertiginosa. Hipotecas, cartões de crédito, títulos, tarifas, swaps, hedges, fundos, ações e derivativos, uma infinidade de instrumentos financeiros, compreensíveis ou não, transformaram a economia global e o mundo financeiro em um misto de complexidade e fantasia. Do escambo ao caos levamos alguns milhares de anos, mas aceleramos com força na reta em que nos encontramos agora; ativos digitais, descentralização bancária, blockchains, criptomoedas, bancos centrais se esmerando para manter o sistema nos trilhos. Torcemos para não encontrarmos alguma curva fechada demais logo a frente, mas a verdade é que não temos a menor ideia para onde estamos indo.

Gostemos ou não de uma sociedade baseada no poder que o capital confere a quem o possui, o fato é que o sistema monetário é uma das criações mais esquisitas e geniais da nossa espécie. O sistema monetário, no entanto, como o conhecemos hoje, é apenas uma forma passageira, algo em mutação contínua, que sofre revezes e se aperfeiçoa, dentro de poucos anos será certamente outro. Em um mundo não lastreado e digital, valores se multiplicam e se estilhaçam na velocidade da luz. Bilhões e trilhões são agora números pronunciados com uma facilidade espantosa, ainda que nem saibamos ao certo para que tantos zeros. Como é do nosso feitio, vamos empilhando camadas de sofisticação sobre tudo o que havia começado de forma simples e natural até o ponto onde nem lembramos mais onde e porque tudo começou. Na aurora das Inteligências Artificiais, o que virá a seguir?

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