Não faz muito tempo não havia linha alguma no mapa. Na verdade, não havia mapa algum. Vivíamos como qualquer outro animal, nos locomovendo livremente de um lado a outro, movidos apenas por necessidades básicas de alimentação, reprodução ou segurança. Nosso único senso de pertencimento era com nossos pequenos grupos familiares nômades. A não ser por medo ou falta de interesse, não havia impedimentos para irmos a qualquer lugar que desejássemos ir. Mas coisa de 12 mil anos atrás, na região do Crescente Fértil (hoje, partes do Oriente Médio), alguns de nós, sapiens, começaram a perceber os benefícios de fincar raízes em um pedaço de chão e aos poucos aprendemos a domesticar plantas e animais. Até que deixássemos definitivamente para trás os nossos mais de 200.000 anos como caçadores-coletores nômades e fizéssemos a transição completa para o sedentarismo e desenvolvêssemos civilizações em todas as regiões do mundo, no entanto, levaria ainda mais alguns milhares de anos.
A partir do momento que nos fixamos e tornamos nossas ocupações mais complexas, não é difícil imaginar que logo surgiram os primeiros traços – de início em tábuas de pedra ou argila – com representações rudimentares de nossos assentamentos e entornos. Passamos a tomar posse de regiões, nomeando e demarcando territórios. À medida que as civilizações se tornavam mais e mais sofisticadas, assim também se tornavam os mapas. Surgiu a cartografia. Porções de terra e água começaram a ser identificadas: continentes, oceanos, ilhas, rios, desertos, mares e montanhas. O mundo passou a ser medido e quantificado.
Os caprichos humanos, no entanto, jamais permitiram que houvesse entre nós algum tipo de divisão justa dos espaços. Somos seres migratórios e territoriais por natureza. Guerras e conquistas são parte da história humana desde o início e assim continuarão sendo. Mesmo que por diversas gerações determinada região pertença a um grupo étnico ou religioso, territórios mudam de mãos o tempo todo. Quando se pensa em uma escala temporal ampla, não há qualquer canto no globo que não tenha trocado de domínio diversas vezes.
No ano 100 d.C., por exemplo, nenhum cidadão romano seria capaz de vislumbrar um fim para sua gloriosa pátria. O Império Romano vivia seu auge, uma fortaleza invencível e moderna que dominava vastas extensões de terra, incluindo grande parte da Europa, o sudoeste asiático e o norte da África. A totalidade do Mar Mediterrâneo estava sob seu domínio, não havia qualquer motivo razoável para crer em queda. Mas um dia – em um processo que levaria séculos – o império ruiria. Alguém nascido hoje português, croata, tunisiano ou libanês, 2 mil anos atrás poderia ter nascido romano. Quem pode afirmar qual nacionalidade terá alguém nascido nesses mesmos pontos geográficos daqui a 200 anos? Isso é a história humana, tudo o que parece ser o ponto final das divisões políticas dos estados e nações é apenas uma vírgula, uma situação transitória, algo que será inevitavelmente alterado em algum momento adiante.
Os Estados Unidos, a maior potência militar e econômica desde o final da 2ª Guerra, seguirão unidos para sempre? A China, deterá seu próprio avanço sobre nações vizinhas algum dia? Estarão famílias coreanas separadas para sempre? O que será de tantas nações africanas, com muitas de suas fronteiras atuais forjadas em negociações inconsequentes tratadas por seus ex-ocupantes europeus? E quanto as autocracias do Oriente Médio, até quando serão propriedades de famílias? A lista de indagações é enorme, mas a única certeza é que muitas linhas no mapa político serão apagadas enquanto outras tantas serão criadas. Povos apartados pela força talvez voltem a se unir um dia, enquanto outros, hoje unidos a contragosto, se apartem.
A percepção de que tudo muda, e portanto, o fato de que o país ao qual pertencemos hoje pode ser outra coisa amanhã, é valiosa para mitigarmos nacionalismos exacerbados. Quase todos nós temos uma pátria, um país ao qual pertencemos. Aprendemos a nos tornar patriotas, saudar nossas bandeiras e acreditar que por ela, a pátria, devemos respeito e até nossas vidas se for o caso. Se vivemos sob as mesmas leis e costumes, compartilhamos a mesma língua, a mesma moeda e os mesmos dirigentes, é natural nos sentirmos parte de um grande grupo de outros seres humanos abrigados dentro das mesmas fronteiras. Mas as fronteiras não foram sempre essas e não serão assim pelo resto da história. Se as coisas não mudarem para nós, nossos filhos ou netos, talvez para nossos bisnetos algo seja diferente.
Se algumas nações já acumulam séculos de história e patriotismo, outras saíram do forno ontem. Certos Estados, que para qualquer um de nós que não seja um centenário, parecem existir desde sempre, na realidade são jovens, muito jovens. Algumas nações não tem sequer 80 anos, nascidas no pós-guerra, outras são ainda mais novas. Apesar das origens antiquíssimas, Líbano e Síria não são nações antiquíssimas. Judeus e palestinos, ainda que reivindiquem ocupações milenares, não estão lá desde sempre. Arábia Saudita e Iraque, por mais que a história de seus povos beduínos nômades remonte milhares de anos, não surgiram com o deserto. Suas fronteiras são quase todas linhas novas em mapas modernos. Se voltássemos ao ano 1.000 d.C., todos esses países fariam parte do Califado Abássida.
Apesar dos avanços da Rússia sobre a Ucrânia ou das ameaças da China sobre Taiwan, guerras de conquistas hoje são muito menos aceitáveis em um mundo arbitrado em boa parte por organizações multilaterais. Mas há ebulições internas, conflitos religiosos e interesses sobre recursos naturais preciosos. Milhares de quilômetros de fronteiras permanecem em disputa entre países. Há ainda um continente inteiro sem dono a ser fatiado entre as nações que, por hora, apenas fincaram bandeiras e montaram bases para estudos científicos. Quem duvida, especialmente em um planeta em rápido aquecimento, que a Antártica, uma porção de terra quase do tamanho da América do Sul, com vastas áreas cobertas por gelo prestes a se tornarem habitáveis, poderá um dia se tornar uma miríade de novos países?
Até quando o próprio conceito de fronteiras nacionais seguirá válido? Um dia extravasaremos o planeta Terra e tentaremos colonizar outros cantos universo afora. Começaremos pela Lua ou talvez por Marte, depois iremos atrás de mais. É possível que em algum momento encontremos resistência de outras formas de vida. Quando tivermos todos uma luta em comum, deixaremos então de ser brasileiros, japoneses ou alemães e seremos então apenas terráqueos ? Seria bom que a pátria jamais precedesse a razão, mas continuamos a ser os mesmos estranhos de sempre, os Estranhos sapiens.